P. Eugene Joseph Paris (1858-1941): Um professor de moral que falava aquilo que pensava

P. Emerson Marcelo Ruiz, scj

Um professor de moral que falava aquilo que pensava

P. Eugene Joseph Paris (1858 – 1941).

 

Nascimento: 24.01.1858 (Buironfosse)

Primeira profissão: 01.11.1880

Profissão perpétua: 17.09.1886

Ordenação sacerdotal: 17.12.1881

Falecimento: 13.01.1941 (Neussargues)

 

P. Eugene Joseph Paris nasceu em 24 de janeiro de 1858, em Buironfosse, a poucos quilômetros de La Capelle. Com onze anos, conheceu Padre Dehon, que o ajudou a entrar no seminário de Soissons. Sua vocação religiosa se revelou mais tarde, quando ingressou nos Oblatos do Coração de Jesus, em 1878.

Como noviço, Paris servia missa todos os dias junto ao Padre Dehon na capela das Irmãs Servas do Sagrado Coração. Segundo Mons. Joseph Philippe (2° superior geral), Paris tinha “um temperamento ardente e um caráter forte. Todas as manhãs ele acompanhava o Fundador à Casa Mãe das Irmãs e servia a Santa Missa. Durante toda a sua vida, lembrava-se do tempo de sua formação e contava com simplicidade infantil as travessuras de seu atrevimento juvenil. Foi necessária a paciência e a profunda compreensão de um Padre Dehon para reduzir a torrente espumosa a seus devidos limites” (DEH 2016-05-IT/167). A correspondência entre Padre Dehon e Paris vai mostrar que esta “torrente” gerou alguns alagamentos…

Fez a profissão em 1° de novembro de 1880. Após concluir seus estudos no Instituto Católico de Lille, foi ordenado em 17 de dezembro de 1881. Logo depois esteve envolvido em algumas obras dos primórdios: missão paroquial, Patronato São José e Colégio São João.

Um dos traços marcantes de P. Paris era a devoção ao Coração de Jesus. Muitas cartas começam com a saudação: “Cor Jesu suavissimum, amor noster”. Durante os estudos em Lille difundia as orações e os livros da Tríplice Coroa do Sagrado Coração (Coroas de Amor).

Padre Paris obteve um diploma de bacharel em literatura em novembro de 1885, especializando-se em geografia e história. Logo em seguida, na Universidade de Rennes, tornou-se especialista em pedagogia.

Entre 1893 e 1896, foi Conselheiro Geral, no período em que o grupo do P. Blancal fazia contestação a Padre Dehon. Infelizmente, P. Paris era próximo ao primeiro, sem, no entanto, ser um grande opositor a Padre Dehon.

Em 1903, ano da expulsão da Congregação da França, Padre Dehon o enviou para Olinda, no norte do Brasil, mas o projeto não foi adiante e ele retornou no ano seguinte.

Foi nomeado professor do escolasticado de Louvain e lecionou hebraico até 1912. Era bom professor, mas com fama de ser exigente… Em 1912, quando era professor de teologia moral, Padre Dehon lhe escreveu:

“Estamos confiando a você o curso de Moral. Você terá de ser muito prático: Génicot e sempre Génicot! Você o dividirá de acordo com o número de tratados a serem vistos durante o ano. Faça com que o Génicot seja bem explicado, sem grandes desvios tomistas […]. Todos os dias, apresente alguns números de Génicot de maneira clara. Consiga uma coletânea de casos de consciência, para que você tenha alguns exemplos para dar durante o curso. Acima de tudo, não seja impetuoso. Seja paciente e gentil. Não se deixe levar pelo descontrole. Seja cortês em suas relações com os alunos. Não use palavras ofensivas. Faça com que eles esqueçam qualquer falha do passado. Desde a primeira aula, diga a seus alunos que você lhes dará uma aula prática e simples, de modo a prepará-los bem para os exames de ordenação e para o ministério. Sei que posso contar com sua docilidade. A Santíssima Virgem e São José o ajudarão” (1LD 30001).

Entre as recomendações do fundador está a utilização do “Génicot”, uma referência a Eduardus Génicot (1856–1902), reconhecido jesuíta belga. Professor na Universidade de Lovaina, Génicot foi autor da obra “Institutiones theologiae moralis”, publicada inicialmente em 1896 e revisada em diversas edições subsequentes, consolidando-se como um manual clássico de teologia moral. A orientação tinha como finalidade assegurar mais objetividade às aulas ministradas por P. Paris.

Parece que os conselhos não produziram o efeito esperado e por isso em 1913, Padre Dehon o enviou para ser pregador em Quévy. Padre Paris encarou isso como uma humilhação. O fundador escreveu-lhe novamente em 15 de maio de 1913: “Uma pequena humilhação não deve detê-lo. […] a cruz é a nossa vida. Uma cruz vale mais do que 500 rosários. Todos estimam sua piedade, embora ela seja considerada um pouco original. Apesar de tudo, eu o estimo muito e não gostaria por nada no mundo que você me deixasse. Ajude-me a carregar a cruz como Simão de Cirene e não se oponha a mim” [1LD 30003].

Quando Padre Dehon morreu, foi o P. Paris, como o membro mais velho da Congregação, a presidir a Missa de Réquiem em 17 de agosto de 1925. Em 1931, celebrou o jubileu áureo de sacerdócio, sendo o primeiro membro da Congregação a atingir esse marco.

Logo em seguida, sua saúde definhou e ficou cego. Faleceu em 1941, em Neussargues, após completar 60 anos de profissão religiosa.

Segundo o P. Egidio Driedonkx, P. Paris era um homem pouco diplomático, que falava o que pensava. Foi sobretudo um religioso de tradição que havia conhecido os anos difíceis da Congregação nos primórdios de sua fundação, mas também seu desenvolvimento. Foi um dos professores mais dedicados do início da Obra.

Algumas cartas do fundador podem dar a impressão de que P. Paris representou um problema para a congregação nos seus primórdios. Pelo contrário, Mons. Joseph Philippe, após apresentar a história de P. Paris afirma que “a nossa geração precisa de homens assim” (DEH 2016-05-IT/169).

Padre Paris foi inteiramente devotado à congregação. Foi por inteiro, com suas virtudes e limites e assim permanece como uma experiência de fé fundamental. Em 1884, P. Paris, escreveu uma carta ao P. Falleur: “Como estamos felizes, querido P. Falleur, por termos sido escolhidos, em primeiro lugar, para tal obra! Talvez sejamos esmagados e moídos como os primeiros materiais de fundação sob as pedras de um edifício” (AD. B. 19.4.3). A peculiar riqueza da história de P. Paris nos ajuda a entender que a perfeição da oblação não consiste na ausência de falhas, mas na integridade de uma vida entregue e, neste sentido, a vida deste irmão mais velho possui fecunda atualidade.